Gabriel nasceu com uma manchinha na testa, quando era pequeno quase ninguém reparava. Só que ela nunca parou de crescer, hoje tomou a testa inteira e já fechou um dos olhos dele.
Em casa são três. O Gabriel, o pai, e o Arthur, de seis anos, que tem uma condição severa.
A mãe foi embora quando o Arthur era bebê. O menino não fala e só se acalma no colo do pai.
O pai é pedreiro. Acorda às cinco, pega dois ônibus, levanta parede o dia inteiro e volta correndo pra casa. O que ele ganha segura a comida e o aluguel.
Pro tratamento, nunca sobrou.
O Gabriel deixou currículo em mercado, em loja, em lanchonete. Ninguém chamou. Então vai pra obra com o pai, de servente, e não falta um dia. Se ele falta, o pai carrega tudo sozinho.
Nos últimos meses tudo mudou: sem a operação, isso alcança o outro olho. E aí o Gabriel pode parar de enxergar.
Tem uma equipe especializada que pode parar isso. O valor é mais do que o pai junta em dez anos levantando parede.
O medo do Gabriel não é o próprio rosto. É o pai ficar sozinho, com o Arthur no colo, sem mais ninguém do lado.
Aos dezenove anos, ele nunca pediu nada a ninguém. Aprendeu a trabalhar de cabeça baixa e a não faltar.
Agora chegou num lugar onde só trabalhar não alcança.
A virada dessa história pode começar aqui embaixo.